Opinião: Alunos “móveis” e aprendizagem ubíqua

Por Talita Moretto

No mestrado, durante minhas investigações a respeito do uso de dispositivos móveis na educação, deparei-me com um texto onde Lucia Santaella (Desafios da ubiquidade para a educação) faz uma classificação de três tipos de leitores e suas características em relação ao desenvolvimento tecnológico: o Leitor Contemplativo (do século XIX), o Leitor Movente (da época da Revolução Industrial) e o Leitor Imersivo (dos novos espaços das redes computadorizadas). E a partir destes surge o “Leitor Ubíquo” (ubíquo = onipresente) – apresenta uma mistura das características do leitor movente com o leitor imersivo-, que são os jovens nativos digitais. Este leitor nasceu nos espaços da hipermobilidade, permeado pelas facilidades dos equipados móveis. Santaella deixa bem claro que o surgimento de um novo tipo de leitor não leva os anteriores ao desaparecimento. “Cada um deles aciona habilidades cognitivas específicas e contribui de modo diferencial para a formação de um leitor provido de habilidades cognitivas cada vez mais híbridas e ricas”.

Todas as pesquisas, discursos, relatos, experiências acerca da influência das tecnologias na educação não abordam essa formação de leitores (ou indivíduos), que eu considero muito assertiva para compreender o desenvolvimento dos cidadãos nos espaços, que se modificam constantemente. Afinal, a partir das influências que recebemos socialmente formamos nossa conduta, nossas ideias, nossos valores, nossas atitudes.

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Imagem: pixabay.com

Neste ponto, é importante esclarecer a existência da “aprendizagem ubíqua” – mediada pelos dispositivos móveis -, que seria um novo processo de aprendizagem sem ensino porque o leitor ubíquo adaptou-se às mudanças próprias da aceleração. Ele tem capacidade para ler e transitar pelos diferentes espaços (físicos e virtuais); pode estar corporalmente presente nos espaços, mas é também imersivo e não vê necessidade de alterar a velocidade ou mudar de lugar. Os dispositivos móveis nos presentearam com as facilidades da flexibilidade, da velocidade, da adaptabilidade, da acessibilidade e da mobilidade.

Desta forma, simples, é mais fácil entendermos o porquê de os dispositivos móveis, principalmente, os celulares, fascinarem cada vez mais seus usuários (crianças, jovens e adultos): porque os usuários conseguem manter uma comunicação ubíqua com seus contatos, ao mesmo tempo em que ouvem música, assistem a vídeos, leem textos, etc.

Mas a aprendizagem ubíqua não é “autoritária”, como muitos a rotulam, não chegou para mandar nos espaços porque ela precisa do apoio da educação formal, pois acessar informação por meio dos dispositivos móveis é fácil, contudo, é difícil avaliar rapidamente o resultado de uma busca, a confiabilidade da fonte e da autoria, e saber conduzir-se com responsabilidade e maturidade pelas redes. A aprendizagem ubíqua é, portanto, muito mais um complemento dos processos formais de ensino do que um substituto deles.

Acredito que os educadores, ao conhecerem essas definições de Santaella, consigam compreender melhor a formação do indivíduo-aluno na sociedade, pois ele transforma-se a cada nova evolução a que é exposto. Com a evolução das TICs, por exemplo, as formas de comunicar e de fazer comunicação sofreram alterações e expandiram-se – o que é inevitável – e isso impactou significativamente os comportamentos, a criação de conceitos, a construção de ideias e, consequentemente, a maneira de educar um estudante.

E voltamos ao discurso conhecido por todos: os processos de ensino e de aprendizagem são impactados com a popularização de novas teorias e novas tecnologias. A cada novo meio desenvolvido, novas formas educativas irão surgir, e a escola deve estar pronta para essas mudanças, para renovar-se ao longo das gerações.

A tecnologia por si mesma não é capaz de transformar a educação a ponto de promover o desaparecimento da escola. Todavia, os meios digitais desempenham um papel importante na vida extraescolar da maioria dos estudantes. Por isso, é necessário – escola, professores e pais – refletir sobre as causas que levam a tecnologia a estar tão fortemente enraizada no atual contexto social e educacional e sobre que posição tomar diante disso.

Este artigo foi publicado em minha coluna no NET Educação (21 de janeiro de 2016).

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