Análise da imagem a partir do Filme "Closer"

 

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Por Talita Moretto
O filme ‘Closer’ é enigmático, atraente, comovente, instigante. Vi mais de cinco vezes e cada cena me surpreende mais toda vez que assisto; descubro algo novo, uma palavra, uma atitude, uma decisão que estava nas entrelinhas.
Essa obra cinematográfica fala de fotografia. Uma arte além da arte. Aprecio muito. Fotografar pessoas… estranhos, é do que trata esse filme. Anna (Julia Roberts), a fotógrafa, já no inicio do filme revela que gosta de fotografar estranhos. Ela sai às ruas com sua câmera para tentar, nas expressões daquelas faces que seu olho vê, capturar a pessoa, sua personalidade talvez, seus anseios, felicidades, angustias ou tristezas, quem saberá? Nem mesmo o fotógrafo sabe ao certo o que sua objetiva irá revelar.
Um exposição fotográfica, ou um álbum de fotografias pessoais, transmite uma arte, a arte de levar você onde você nunca esteve. Como sei que a Torre Eifel é inclinada se nunca estive em Paris? Como adoro os Cafés parisienses e seu glamour se nunca passei se quer pela porta de entrada? Porque vi em uma fotografia. Alguém mostrou, de alguma forma, e diante de meus olhos minha mente pode reconstruir a cena do momento em que a foto foi tirada.
Não podia escrever este texto sem trazer aqui as reflexões de dois autores magníficos: Martine Joly e, claro, Roland Barthes. “Você cria uma imagem e a fotografia mortifica essa imagem”, dizia ele. “Uma imagem pode tornar-se perigosa por querer assemelhar-se muito a realidade, a ponto de confundir-se com ela; ou por mostrar-se diferente dela”, acreditava Joly.
Voltando para a reflexão dos magníficos Cafés parisienses, Barthes concorda comigo. Já teve essa sensação quando contou: “Um dia, há muito tempo, dei com uma fotografia do último irmão de Napoleão, Jerônimo (1852). Eu me disse então, com um espanto que jamais pude reduzir: ‘Vejo os olhos que viram o Imperador`.” Já encontrei muitas pessoas na rua as quais eu já conhecia, por ver tantas vezes, em fotografias de amigos. Isso já aconteceu com você? Uma vez eu mesma me surpreendi, igual o espanto de Barthes [que na época ninguém deu importância] quando vi uma pessoa, aos olhos nu, que eu já conhecia por fotografia. E ela era distante, fisicamente e pessoalmente, de mim, quase impossível conhecê-la pessoalmente. Portanto, quando vi fotos com sua imagem era como se existisse realmente, mas de repente ela estava li, à minha frente, que o espanto saiu da boca: “Você não é fulana?”. Ela disse sim, mas com uma dúvida do tipo: “Como essa louca sabe?” Louca mesmo, confesso, mas o fato de ser real, e não apenas uma imagem em uma fotografia, foi tão surpreendente que percebi, naquele momento, o real motivo de tirarmos foto: estamos construindo uma realidade, da forma que a gente quiser. “Diante da Objetiva, sou ao mesmo tempo: aquele que eu me julgo, aquele que eu gostaria que me julgassem, aquele que o fotógrafo me julga e aquele de que ele se serve para exibir sua arte”. (Barthes)
Quando divulgamos fotografias, em redes sociais, escolhemos as bonitas, certo? Claro, não queremos mostrar, para aqueles que verão apenas nossa imagem, que temos momentos ruins, dias estressantes, que nossa face nem sempre está corada e que temos sim olheiras, e que acordamos com o cabelo bagunçado como qualquer ser humano, e que nem sempre a roupa que vestimos cai bem. Nós inventamos EUS em nossas fotografias. Quem eu quero ser hoje? “Ver-se a si mesmo, e não em um espelho”. (Barthes). A quem pertence a foto? Ao sujeito fotografado ou ao fotógrafo?
Fotografar é personificar sentimentos… enclausurar aquela pessoa, objeto, e apropriar-se, da forma que gostaríamos que fosse… eternamente nosso. Apreciar uma fotografia é criar, dentro de nossos desejos, o momento perfeito, como se estivéssemos lá… como se aquele alguém fosse íntimo o suficiente para sorrir para nós, chorar conosco, ou nos repreender… ou simplesmente para dizer: eu estive lá, porque eu quis estar.
“Tentando saber, contemplamos as fotografias com uma esperança louca e vã de descobrir a verdade” – Roland Barthes, citado por Martine Joly.

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2 thoughts on “Análise da imagem a partir do Filme "Closer"

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      Gostei da postagem! Não sabia que você gostava de fotografia! Ou gosta mais do filme?

      • Author gravatar

        Olá Eduardo,
        gosto muito de fotografia sim. Estudei bastante quando cursava jornalismo e, inclusive, adquiri uma máquina profissional e por um bom tempo era um passatempo fotografar em cores e PB. Mas também gosto muito do filme. 😉
        Abraços

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